Na introdução, Audálio Dantas é feliz ao ser direto, explicando para os leitores o que é ser um repórter e como trabalhar na profissão. Ele usa a frase de Acácio Ramos, que diz: “Repórteres, meu senhor, sã pessoas que perguntam.” Em seguida explica que essa frase é quase a definição perfeita sobre o repórter. Audálio quis dizer que, além de perguntar, o profissional tem outros objetivos tais como: entender o que se pergunta e o que é respondido, escrever, editar e entre outras coisas. Todos que querem seguir na profissão devem saber disso. Portanto essa introdução é bastante direta e mostra aos profissionais ou futuros profissionais a verdadeira função do repórter.
Logo na apresentação dos textos de Audálio Dantas, podemos notar que o repórter se aproxima ou exerce o jornalismo literário, pois começa os textos com detalhismo que faz com que os leitores imaginem muito bem as ações e lugares em que o repórter esteve. Leiam o trecho a seguir que irão saber o que digo: “De manhã, o sol varrendo a rua, a mulher do xale preto estava de volta. Foi preparar o café – cuscuz de milho, ovos fritos e carne de bode assada. Logo mais chegava o jipe que devia me levar de volta ao acampamento próximo à barragem, em Cocorobó, lugar que também ficara na história como campo de uma das mais sangrentas batalhas da guerra.” Nos dias de hoje, a notícia é “presa” somente a informação, e o que o repórter vive para conseguir a notícia não entra mais nas matérias, fazendo com que tudo fique muito ‘seco’.
Em seguida, nos deparamos com a reportagem de Caco Barccellos. Em sua reportagem, Caco fala sobre a batalha entre os indígenas e os donos de fazendas que invadiram a área que era designada aos índios. Diferente de Audálio, Barcellos vai direto ao assunto, sem rodeios, dando prioridade ao acontecimento. Logo nos primeiros parágrafos, recebemos uma “aula” do que é ser imparcial ou não no jornalismo.
“Em poucas horas de trabalho eu já havia esquecido o compromisso d imparcialidade jornalística, estava torcendo pelo exército dos índios esfarrapados. Era o lado mais fraco, formado por aventureiros que impressionavam pela fragilidade, envolvidos num desafio quase impossível.”
Apesar de difícil, devemos ser imparciais sempre, pois a informação que passamos para a sociedade pode influenciar também no meio político. Imagine se Caco distorcesse as informações em prol dos indígenas e algum governo seja municipal, estadual ou federal, acompanhasse somente as informações que ele enviasse à revista. Esse conflito poderia se tornar um caos dependendo das ordens de algum governo em relação à situação. Ou seja, a imparcialidade, não é ficar do lado de alguém ou algo, é na verdade, apenas informar o que foi apurado. Sem favorecer nenhum lado e ninguém. Devemos mostrar a realidade e nada mais para a sociedade. Depois, quem leu, ouviu ou assistiu, irá tomar uma posição sobre determinado assunto, mas o jornalista não deve em hipótese alguma manipular a noticia. Além de antiético, pode ser bastante perigoso para a carreira.
Mais a frente nos deparamos com Carlos Wagner, repórter que já recebeu 5 prêmios Esso de Jornalismo. Ele relata duas reportagens interessantes, mas a que chama a atenção, é a “O gigolô” que fala sobre a prostituição infantil no Rio Grande do Sul. Mas não citarei nada da reportagem aqui para fazer com quem se interesse, leia. Irei falar de algo que pode ser motivador para os novos jornalistas. Carlos cita como é, geralmente, a maioria das redações que os jornalistas enfrentam no dia a dia. Vamos à citação: “Muitas vezes, quando se torna quase impossível fechar uma reportagem e parece que tudo vai explodir ao meu redor, par e me pergunto: o que estou fazendo aqui, metido neste rolo? A resposta vem de imediato: sou repórter, odiaria estar fora de confusão. Isso funciona.Lembro que adoro tudo aquilo que cerca o nascimento de uma matéria, a correria, a incerteza, a conversa no bar, a investigação, a viagem pelo mundão atrás daquele depoimento fundamental. E o prazer supremo: o de escrever aquilo que é lido.” Essa breve citação, é tudo o que alguém que se interesse pela profissão, precisa saber. Claro que na prática, muita coisa pode mudar, mas ser repórter é isso. A correria, a incerteza e etc. Devemos analisar bem o que é esta profissão. Como outras profissões que podem não trazer uma ‘felicidade’ financeira, o jornalismo também não é assim. Para ser jornalista, todos devem no mínimo gostar de tudo isso que Carlos Wagner cita. Com essas características e um pouco de sorte e vontade, podemos ser os melhores repórteres, editores, pauteiros, correspondentes e etc. No começo, tudo vai depender da vontade e amor pelo que faz de cada um.
Já que citei a “sorte”, vocês encontraram nos textos de José Hamilton Ribeiro, o que ele define para ser um bom repórter e também ver que no mínimo, devemos gostar muito de escrever. Veja: “Repórter sem sorte é como goleiro sem sorte: pode ser bom, mas não resulta. Acaba no banco.” “… o subchefe da reportagem (da Folha) veio para o meu lado. Entregou um telex da agência internacional dizendo que a oposição ao imperador Selassiê, aproveitando que ele estava no exterior, tinha dado um golpe e o ‘apeado do trono”, como se diz. “Sucede que o “exterior” a que se referia o telegrama era São Paulo.” “Não é sorte pegar um golpe de Estado, sozinho, num plantão?! Sorte é preciso tenho certeza. Mas não basta. Claro que não basta.” José Hamilton também cita que ao fazer um Curriculum Vitae para Universidade, relacionou 800 grandes reportagens. Ou 240 mil linhas. Ou seja, em qualquer veículo de comunicação, devemos gostar e saber escrever. Não precisamos ser nenhuma ‘gramática ambulante’ ou escrever difícil. Temos consciência de que o leitor não gosta de coisa complica. Devemos evitar claro, erros de concordância, erros de escrita. Dar nexo ao assunto abordado e sempre ser imparcial são os principais junto do que não devemos fazer. Fora essas dicas de José Hamilton, contamos também com a escrita que também podemos chamar de literária. Bem detalhista.
São grandes repórteres que fazem parte deste livro, talvez, seja um dos melhores livros para quem quer exercer não só o cargo de repórter, mas qualquer cargo dentro do jornalismo.
Ao ler os textos, percebe-se que antigamente, a narrativa imposta pelos repórteres era mais livre. Isso pode servir para que os jornalistas de hoje, busquem mais liberdade editorial. Hoje o que podemos perceber claramente, que o repórter transmite a notícia com certa “frieza”, já que deve informar e nada mais. Porém, acredito que jornais e revistas deveriam dar um pouco mais de espaço para que seus repórteres descrevessem um pouco das situações vividas durante a busca de informações para a matéria.
O livro “Repórteres” é um dos melhores livros para quem pretende ser jornalista ou já está atuando na área. Como a maioria dos ‘focas’, o começo da profissão é difícil e batalhadora, a maioria começa como repórter. Inevitável. Portanto, este livro deveria se tornar um livro de cabeceira, já que traz textos de grandes repórteres. Além de Audálio Dantas, Caco Barcellos, Carlos Wagner e José Hamilton Ribeiro, o livro conta com a audácia e o faro investigativo em reportagens de Domingo Meirelles. As histórias de um correspondente de guerra, Joel Silveira. As reportagens de Lucio Flávio Pinto que fala sobre a Amazônia. O fundador da Editora “Abril”, Luis Fernando Mercadante que já teve o privilégio de retratar personalidades importantes do Brasil, como Carlos Lacerda, Tancredo Neves e João Goulart. E Também, correspondente brasileiro em Nova Iorque. Marcos Faerman referencia aos que gostam do “novo jornalismo” ou jornalismo literário. Marcos Santayana ex- correspondente e exilado político. e Ricardo Kotscho, jornalista que viveu o antes, durante e depois do Ato Inconstitucional número 5, o AI-5.
Um livro indispensável para todos que querem ser bons repórteres.
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